I won't give up.
A letra desta música encanta-me de tal forma que me faz parar e pensar que estou de passagem. Faz-me pensar como tudo é efémero... E alerta-me para a necessidade de aproveitar. Quero aproveitar o mundo e aproveitar-me.
T.
A letra desta música encanta-me de tal forma que me faz parar e pensar que estou de passagem. Faz-me pensar como tudo é efémero... E alerta-me para a necessidade de aproveitar. Quero aproveitar o mundo e aproveitar-me.
T.
Escrevi as próximas palavras num qualquer dia de Janeiro deste ano. E hoje, enquanto fazia uma limpeza à minha agenda que já quase não fechava, aparareceram-me nas mãos, sem querer. Li e soube-me bem, hoje. Se as tivesse lido ontem talvez o sabor não tivesse sido o mesmo... Hoje gostei delas, de cada uma. Não são palavras simpáticas, que não são mesmo. Mas hoje também não estou preocupada com simpatias nem com aparencias. Desabou mais um bocadinho do meu mundo dos sonhos - quero procurar forças para reerguê-lo.
Continuo doente. Não sei como é que um gelado à beira rio consegue ter o poder de me mandar à cama sem dó nem piedade. É febre e tosse e vómitos. E febre e tosse e vómitos. E febre e tosse e vómitos. E fazer frente a isto? Não está a ser fácil. Ontem alguém me disse "Devias ir ao médico... Os médicos sabem mais que os enfermeiros". E pronto, virei fera.
Se há coisa que me deixa frustrada é que a minha classe profissional seja vista enquanto subordinada da medicina. Os médicos sabem mais? Então porque é que, recentemente, um, no Centro de Saúde, me bateu à porta do gabinete para me perguntar qual a função do alginato de cálcio? E porque é que tive uma discussão recentemente com uma médica devido à minha recusa de administração de um nolotil? Ela tinha prescrito um fármaco oral a um doente. Expliquei-lhe que no Centro de Saúde não havia, havendo só intramuscular e ela... Pediu-me que administrasse o fármaco intramuscular por via oral. Expliquei-lhe que não, que isso não era correcto, que a absorção sublingual por capilares de tamanho calibre não era adequada, que a senhora poderia ter uma paragem cardiorespiratória devido a um risco que seria evitável de correr, uma vez que existia medicação substituta do fármaco em causa. A discussão manteve-se. Não administrei, não cedi, não nada. A médica, de 60 anos, não gostou que uma miúda como eu colocasse em causa a sua competência [diz ela]. Tenho muita pena, mas o livro de farmacologia por onde ambas estudamos é explícito... Chateiam-me as pessoas que vivem no alto, no seu trono com falhas, querendo fazer ver que são reis e senhores. E eu acho que são muitas vezes os doentes os culpados disto, que criam ideias de que os médicos são espécies raras [porque prescrevem]. Quando cheguei a casa fiquei triste porque pensei que ela também o estaria, por minha causa. Mas já nada havia a fazer e, pelo menos, a senhora não bebeu um nolotil intramuscular.
Hoje em dia não me chateia muito que me comparem com a classe médica. Costumo dizer a essas pessoas que irão perceber o que é um enfermeiro no dia em que precisarem dele.
Hoje tenho pena que as pessoas comparem duas classes profissionais distintas: aceito que o meu colega, enfermeiro, seja melhor que eu; não aceito que o médico saiba mais que eu: há-de ser melhor que o seu colega, também médico. Mas, do meu campo, não há-de ser o médico a saber mais.
Se são coisas tão diferentes, porque é que as pessoas continuam a compará-las? E, sempre, a menosprezar o enfermeiro que, além de tratar, cuida. Não era o meu sonho ser enfermeira, que não era mesmo. Mas hoje acredito que nada acontece por acaso e, se Deus quis que eu pertencesse ao mundo da enfermagem foi porque quis que eu conhecesse esta realidade para, no mínimo, escrever isto aqui. É possível que pensasse de outra forma se não fosse enfermeira... Não julgo ninguém por isso, só penso que as ideologias poderiam ser alteradas. Talvez já seja momento disso.
Sou das coisas justas. Sei que se um dia colocar a enfermagem mais distante de mim, hei-de ter um carinho brutal e uma admiração imensa por estas pessoas que se entregam de uma forma ímpar às vidas que nem conhecem. Mas que devem ser cuidadas - porque são vidas.
Sou das coisas simples: enquanto o mano e a Jo. optam por galões e tostas mistas nos pequenos almoços deliciosos de Sábado de manhã, eu quero pão com Nutella e leite simples. Gosto mais. As coisas muito elaboradas cansam-me um bocadinho. As lutas de décadas fazem-me chegar à conquista e perceber que cheguei cansada, sem vontade de manter o resultado em mãos.
Hei-de lutar a vida inteira [para mim, não faz sentido de outra forma] mas, para já, quero o momento, quero ser feliz. Ando em modo "carpe diem".
Eu disse que não eram palavras simpáticas... Para fazer face à minha incredibilidade perante a admiração dos demais, hoje deparei-me com um sonho de uma pessoa que, sem nunca ter visto, acho que conheço bem. É a Silvina. É a pessoa que me faz chegar a casa e querer saber noticias suas... É uma das pessoas mais lutadoras que "conheço". É uma das mulheres com maior garra que leio. E a Silvina, licenciada, mestre e doutora, tem o sonho de ser enfermeira.
http://episodiosderadio.blogs.sapo.pt/85
T.
Nos dias em que consigo sair do Centro Saúde às 15h, gosto de chegar à avenida, deixar o carro e dar um saltinho à livraria. Tenho duas seguidas, mesmo ao lado uma da outra. Começo pela que está mais longe e só depois me chego à outra [encontro uma explicação para isto: começo sempre pelas coisas mais difíceis para, depois, conseguir chegar às boas sem preocupações que não me deixem aproveitar o momento]. E hoje o ritual repetiu-se: cheguei, deixei o carro e nem vim a casa: fui directamente para a livraria. E, não sei bem como, mas o tempo passou a uma velocidade alucinante… Ao ponto de me fazer questionar se não estaria atrasada para o jantar de hoje no Lucca.
Queria comprar um livro, sem ideias pré definidas de qual seria. Entrei e ali fiquei, a deliciar-me com o que encontrava. Acompanhar-me nestas horas deve ser uma tarefa muito pouco feliz… Por isso vou quase sempre sozinha. Gosto de pegar nos livros que me despertam interesse, abrir numa página ao acaso e ficar ali, a esquecer-me que o tempo continua a passar, que o mundo continua a girar, que os problemas existem. Gosto de me esquecer – e os livros ajudam-me nessa tarefa complicada. Os mundos díspares com que me confronto em cada história [que eu acredito sempre que, para alguém, é real… Mesmo que o autor a busque na sua mais profunda imaginação], fazem-me pensar que a própria história da minha vida poderia dar um livro. Com partes cómicas, partes felizes e outras menos boas. Com um final feliz [talvez].
Hoje a indecisão manteve-se até ao último minuto entre dois. Queria muito ler os dois, queria muito trazer os dois na mala para casa. Mas não gosto de comprar dois livros ao mesmo tempo – por norma, um acaba sempre colocado de lado e acabo por perder o interesse, deixando-o esquecido na estante. Há uns meses comprei um que comecei a ler no próprio dia em que o trouxe comigo. Estava a gostar mesmo e, acredito, deve ser um livro mesmo bom. Mas… Os acontecimentos passados nos momentos que faziam as pausas entre a viragem de uma e de outra página criaram em mim desconfortos. E agora, cada vez que pego nele [já fiz várias tentativas], lá me vêm coisas tristes à memória. Lembro-me dos sítios onde fui com ele debaixo do braço. Lembro-me dos dias em que o trazia comigo na mala. E não me apetece lembrar de nada disso. Portanto, arrumei-o atrás de todos os outros, na estante, e só voltarei a pegar-lhe quando não me lembrar das circunstâncias pelas quais o deixei.
Finalmente, a minha decisão prendeu-se por um único ponto: um dos livros tinha 700 páginas e o outro tinha 300. E eu, numa fase da minha vida em que deixei de acreditar em coisas longas, em que tenho medo de me cansar antes de vislumbrar o final, optei pelo mais pequeno. Quando voltar a acreditar no “para sempre” compro o outro, o que deixei na livraria, “O Anjo Branco”. Este veio comigo hoje e prometo tratá-lo bem nos próximos dias. Que seja uma partilha boa [enquanto durar].
T.
Sempre gostei de canetas: desde as Bic às Parker, anda de tudo um pouco no estojo do bolso da bata. Já fui enganada a comprá-las e agora, cada vez que compro uma caneta, confiro sempre que a marca da carga é a mesma da caneta. Há dois anos, quando encontrei uma Parker cor-de-rosa nas férias de verão de Peniche, a senhora da loja não achou graça à minha confirmação – pedi-lhe desculpa e expliquei-lhe que os enganos me tornam assim: precavida e desconfiada.
Tenho canetas de quase todas as cores, além de variar pouco entre o azul e o preto. Não acho nunca que o dinheiro seja mal empregue – é uma daquelas perdições que me fazem gastar dinheiro sem arrependimentos.
Quando me oferecem canetas, o mundo para. Fico ali a olhar para a forma, para a cor, para tudo. Nunca percebi muito bem a origem deste gostar [talvez a colecção de canetas do pai, que continua na porta de baixo do móvel da sala, tenha influenciado a aparecimento desta paixão], mas gosto. Gosto de pegar nelas e escrever o que me vai cá dentro. Muitas vezes, o único receptor dos meus pensamentos é o papel, e eu e a caneta passamos até ele o que resulta da nossa comunicação. É a magia das palavras.
Ontem, em mais um dia bom de trabalho, entre uma consulta e outra, recebi a enfermeira especialista de pediatria. “T., tenho uma coisa para ti.” – disse-me. Vindo de quem vinha, só podia ser bom. Tirou do bolso a caneta com a qual qualquer enfermeiro pediatra sonha: a caneta da Nutribén, com bebés desenhados com sorrisos contagiantes. Verde, amarela, vermelha e com todas as outras cores que existem… “É para ti. Vai ser um grande orgulho ter-te enquanto colega especialista!” Eu fiquei ali a olhar para ela e para a caneta, meio parva, e não consegui deixar de verter uma lágrima. É a caneta que eu fui vendo no bolso dos enfermeiros pediatras durante anos, que me fazia sorrir e sonhar. “Um dia…” – pensava. Hoje, ainda antes de ter começado a especialidade, é o primeiro dia em que vou ostentar no bolso da minha bata a minha caneta. E não é uma caneta, é a caneta.
E mesmo que haja quem não perceba toda esta festividade por causa de uma caneta, não me importo – deixem-me lá viver este pequeno momento de glória. E sabem tão bem… E vão dando um sabor tão bom à vida, estes pequenos grandes momentos.
T.
Aqui o cantinho vai de férias por um motivo bom: eu também vou. Férias boas, com pessoas boas, com coisas boas e longe daqui. Perfeito.
Fui ao local onde, por cá, as encomendas são entregues. Perguntei se a minha já tinha chegado. Explicaram-me que não, que ainda não tinha chegado nada para mim. Perguntaram-me se a minha encomenda tinha saído há muito tempo. Eu disse que não sabia, que não sei. Disse que seria possível que ela se tivesse extraviado, que se tivesse perdido, que [talvez] nem tivesse chegado a separar-se do remetente. Disse que não sabia nada. Senti silêncio no espaço. Tive medo. Tive frio. Desejei sair dali. Mas não saí. Mantive-me e disse que não sabia se iria voltar em busca da mesma encomenda. Porque cansa dar passos sem sentido, em busca do que não existe. Do que, na verdade, nunca existiu. Pedi que, se a encomenda chegasse, a guardassem. Não irei procura-la em breve. Não quero, não me apetece, não tenho vontade. Mas, não vale a pena deitar no lixo o que algum dia, alguma vez, alguém criou, juntou, embrulhou e enviou. Não vou voltar a procurar o que afinal, não passou de poeira. Quero terreno firme. Quero dar passos seguros. Vou esperar que a poeira assente. E que demore – não tenho pressa. Só quero que, na próxima vez em que eu for ao local das encomendas, a minha tenha chegado. Direitinha. Imperfeita, como é bom. E que seja parecida com o que eu pedi a quem envia as coisas.
A encomenda era a felicidade. A minha.
T.
Chego a casa. Preparo o jantar. Sozinha. Janto. Sozinha. Olho para o lado. Para as paredes, para o sofá, para as almofadas, para os quadros que revelam sorrisos de outros tempos. Para os sonhos construídos e destruídos posteriormente. Olho para as imagens. Para os livros, todos tão importantes, que se mantêm na estante. Queria levar todos, mas não consigo. Acabo de jantar. Volto a cozinha, lavo a loiça, arrumo a casa. Sozinha. Vejo os perfumes. Cada um faz-me lembrar uma fase da minha vida… E há alguns que eu deixei de conseguir usar. Porque me fazem lembrar pessoas. Porque me fazem lembrar momentos. Chego a cama e tento adormecer rapidamente para não pensar. De repente, apercebo-me que me estou a despedir de tudo. Apercebo-me que este espaço já não é meu. Apercebo-me que já estou longe daqui.
T.
Electrifiquei. Não sei bem se este termo constará em algum dicionário, mas a verdade é esta: electrifiquei mesmo. Devo ter dentro de mim uma dose excessiva de energia que me faz apanhar choques em quase todos os sítios. Desde a bancada do meu gabinete no Centro de Saúde, à porta do meu carro, à porta da carrinha do pai, aos próprios doentes, até à entrada para o comboio. Hoje, quando vinha para casa, foi em plena estação: carreguei no botão para abrir a porta e apanhei um choque tão grande que quase gritei. E o problema é mesmo este: as figuras tristes que isto me anda a obrigar a fazer. Claro que as pessoas são obrigadas a sorrir e devem pensar que eu estou com algum problema… E estou mesmo! Não sei o que me pode ajudar a resolver isto - na noite de sábado apanhei um choque até no travão de mão. Segundo o pai, se colocasse os pés no chão antes de tocar na porta do carro, evitava choques. Mas agora já nem isso é suficiente… Chego ao ponto de ter de fechar a porta com o cotovelo, não vá ele dar-me outro daqueles que até fazem barulho [sim, a coisa já se ouve]. Enfim… Era um electricista para para a mesa 5, sff. Enquanto ele vem e não vem, vou proporcionando boa disposição às pessoas que se cruzam comigo quando a energia me vê como alvo. Tudo tem um lado positivo.
T.
I'm in love:
Consegui dizer não aos ovos moles de Aveiro, mas não consegui rejeitar estes que apareceram cá por casa. Desconhecia tal iguaria, mas estou rendida, para mal dos meus pecados. Os 10 Kg que perdi sem querer vão repor-se num abrir e fechar de olhos.
Nunca achei piada ao Boss AC. Não que tenha algo contra o senhor, mas as suas músicas nunca me tinham dito muito. Hoje, quando vinha no comboio para casa, passou esta e caiu-me que nem ginja em copo de chocolate. É este o espírito.
Hoje de manhã fui ao Pingo Doce comprar o meu pão de oito cereais. Há dois dias que não comia e já tinha saudades dele. Como em todos os outros dias, encontrei pessoas e mais pessoas. Umas mais sorridentes e outras menos. Umas com olhares brilhantes e outras com olhares mais baços. O normal. Quando já vinha para a caixa pagar, vi a mesma senhora que há uma semana me disse qualquer coisa como isto “Tenho saudades de ver os seus olhos azuis brilhantes, menina!! Não se esqueça que atrás do 27 vem o 35!” e se tinha escapulido sem que eu tivesse tempo de lhe dar resposta. Na altura não dei grande importância àquilo [na altura acho que não dava importância a nada, mesmo]. Hoje vi a senhora lá ao fundo e pensei para comigo “Já está, vem de lá coisa.” Cheguei à caixa e ela veio colocar-se exactamente atrás de mim. Tocou-me no ombro. “Vejo-a com uma disponibilidade melhor para a vida, mas também vejo que está uma grande mágoa dentro de si…” Eu nem conseguia responder à senhora. É normal que uma pessoa que nunca vi na vida me venha dizer aquelas coisas? Tudo me acontece. E ela continuou “Está triste até com Deus, a quem tanto reza, a quem tanto pede, e que julga que não lhe tem dado ouvidos. Engana-se menina. Vou-lhe contar uma coisa: quando a vi na semana passada achei que era uma como tantas outras, que segue viagem no primeiro autocarro que aparece. No fundo, eles vão quase todos dar ao mesmo sítio. Agora vejo que não. É uma pessoa diferente e por isso especial. Acredite no que lhe digo: espere pelo autocarro. Ele vai acabar o percurso e vai voltar a dar a volta. A menina ainda há-de estar na paragem. E aí conseguirá conquistar o verdadeiro sabor da felicidade. Já são raras as pessoas assim, sabe?” Eu fiquei a olhar para ela com ar de parva, com certeza. “Conhecemo-nos?”- perguntei-lhe. “A menina não me conhece, mas eu sei muito de si. Tem uma vida mesmo brilhante pela frente, acredite. Tem sofrido bastante até aqui. Acreditou que ia ser feliz e teve a desilusão da sua vida. Mas não terá outra como esta. E, fique a saber menina, na próxima vez que nos virmos, terá de volta o seu olhar brilhante e azul como o mar.” Comecei a não gostar muito da história… “Mas como é que sabe essas coisas todas de mim?” Respondeu-me: “Não sei como sei. Mas sei. E olhe… A sua viagem pode ser aqui, mais perto. Já viu que o sítio para onde quer ir fica tão longe? A sua felicidade está aqui. Tão perto de si e do seu Centro de Saúde.” Pronto, fiquei arrepiada. Não faço ideia de como é que a senhora sabe que eu trabalho num Centro de Saúde. Chegou o meu momento de pagar – finalmente. Paguei e despedi-me da senhora com um sorriso e um até amanhã. Ela despediu-se de mim com um “Não desista. Nunca foi enganada. As pessoas é que se têm tentado enganar a elas próprias…” Saí dali tão depressa quanto entrei. E isto tem andado aqui, a remoer. Para já vou comer o meu pão de oito cereais. Tenho compota de frutos silvestres. E vou tentar não pensar muito nisto.
T.
Já agora... Hoje reparei que chegámos às 15000 visitas. Juro que não percebo como é que há tanta gente a gastar o seu precisoso tempo a ler coisas sem jeito, mas obrigadinha :)